Rota Caminhos da Agroecologia · Comercialização

Aldeia Fazendinha recebe Espaço da Agricultura Familiar e Cultura – Feira de Roças e Quintais

No salão comunitário da APIC, no Portal do Encantado, em Porto Esperidião (MT), famílias chiquitanas levaram banana, mandioca, mel, chicha, farinha, castanha de cumbaru, artesanato e remédio tradicional para a feira da Rota Caminhos da Agroecologia.

Na sexta-feira, 9 de outubro de 2026, choveu na Aldeia Fazendinha, em Porto Esperidião (MT). As nuvens pesaram sobre a serra do Portal do Encantado, mas debaixo da cobertura do salão comunitário da APIC as mesas foram montadas do mesmo jeito, e sobre elas apareceu o que as famílias chiquitanas cultivam nas roças e nos quintais.

Ninguém ali tratou a chuva como contratempo. Em outubro, depois de meses de estiagem, água no Portal do Encantado é sinal de que o tempo de plantar começou, e quem estava na feira chamou a chuva de abençoada. O evento começou por volta das 19h e seguiu noite adentro. Por causa da chuva, foi menor do que o previsto: cerca de cinco bancas, tocadas por sete famílias, com a comunidade, convidados de outras aldeias e organizações parceiras reunidos no salão.

O evento foi o Espaço da Agricultura Familiar e Cultura — Feira de Roças e Quintais, atividade da Rota Caminhos da Agroecologia. A organização local ficou com a APIC, Associação Produtiva Indígena Chiquitano, que recebeu a feira na própria sede. No balanço do dia, a coordenação da Rota e a diretoria da APIC avaliaram que a feira foi muito boa.

Salão comunitário da APIC na Aldeia Fazendinha, com a faixa da Rota Caminhos da Agroecologia: do campo à cidade, alimento de verdade de quem cuida da terra
O salão comunitário da APIC, com a faixa da Rota Caminhos da Agroecologia estendida para a feira.
Quando e onde

9 de outubro de 2026

Salão comunitário da APIC, Aldeia Fazendinha, Terra Indígena Portal do Encantado, Porto Esperidião (MT), a partir das 19h. Cerca de cinco bancas e sete famílias.

Quem organizou

APIC e a Rota

Organização local da APIC (Associação Produtiva Indígena Chiquitano). O CTA, que coordena a Rota Caminhos da Agroecologia, mobilizou a comunidade e registrou as vendas.

O território

Portal do Encantado

Terra chiquitana de cerca de 43 mil hectares, declarada em 2010, entre Porto Esperidião, Pontes e Lacerda e Vila Bela da Santíssima Trindade, na fronteira com a Bolívia.

A terra entre a serra e a fronteira

A Aldeia Fazendinha fica na Terra Indígena Portal do Encantado, território do povo Chiquitano no oeste de Mato Grosso. A paisagem ajuda a entender o nome: campos, manchas de mata e roças de família espalhados ao pé de uma serra de paredões de pedra que domina o horizonte.

Vista aérea da serra do Portal do Encantado, com paredões de pedra sobre a mata e as roças da Terra Indígena
A serra do Portal do Encantado vista do alto.

A terra soma cerca de 43 mil hectares nos municípios de Porto Esperidião, Pontes e Lacerda e Vila Bela da Santíssima Trindade, dentro da faixa de fronteira com a Bolívia. Em dezembro de 2010, a Portaria nº 4.219 do Ministério da Justiça a declarou de posse permanente do povo Chiquitano. A demarcação, no entanto, ainda não foi concluída.

Os chiquitanos são um povo dos dois lados da fronteira: a maior parte da população vive na Bolívia, e no Brasil se concentra em Porto Esperidião, Vila Bela da Santíssima Trindade, Pontes e Lacerda e Cáceres. O plantio faz parte dessa história. O arroz, o feijão, a mandioca, a banana e o milho cultivados nas aldeias alimentam as famílias e agora começam a chegar também à feira.

Fazer uma feira dentro da aldeia, no salão da própria comunidade, tem um peso particular nesse contexto. Mostra que o território produz alimento e cultura, e mantém a renda desse trabalho circulando entre as próprias famílias.

Banana, mandioca, mel e chicha

A banana estava em toda parte: em cachos, amadurecendo sobre as mesas e transformada em doce vendido em potinhos. Ao lado vieram a mandioca e a farinha, o feijão, a pipoca, os ovos, a gordura de porco, o mel e a castanha de cumbaru, colhida no cerrado. Teve também chicha, a bebida tradicional feita de milho, e suco para quem quisesse.

Banca com cachos de banana, espigas de milho, potes de doce e bucha vegetal sobre toalha florida
Banana, milho e doce na mesma banca.
Bacia de ovos caipiras em primeiro plano e bananas expostas na banca ao fundo
Ovos caipiras e bananas dos quintais da aldeia.

A comida feita em casa completou as bancas, com bolo de queijo e empanado de frango preparados pelas próprias famílias. E dois itens que não aparecem em qualquer feira diziam muito sobre o lugar: o artesanato chiquitano e o remédio tradicional feito com plantas da mata, saberes passados de geração em geração.

Atrás de cada mesa havia uma história de trabalho: a roça aberta e plantada, a colmeia cuidada, o doce mexido no tacho, a farinha torrada no forno. Na feira, esse trabalho vira renda, sem atravessador, com preço combinado entre quem produz e quem leva o alimento para casa.

O papel do CTA nas feiras e nas aldeias

A feira da Fazendinha é a ponta de um trabalho bem mais longo. O CTA coordena a Rota Caminhos da Agroecologia, criada em 2018 para enfrentar um gargalo antigo da agricultura familiar: vender o que se produz. Nas feiras, a equipe do CTA mobiliza as comunidades, organiza a estrutura junto com as associações locais e registra as vendas de cada banca. É esse controle que mostra, em números, quanto da produção virou renda para as famílias.

Nas comunidades tradicionais, esse trabalho começa muito antes do dia da feira. O CTA acompanha os chiquitanos de Porto Esperidião pelo menos desde 2016, quando assessorou um projeto do PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) em uma aldeia do município. Hoje, esse apoio passa pelos quintais produtivos, as áreas em volta da casa onde se plantam hortaliças, frutas e plantas medicinais e se criam pequenos animais, quase sempre sob o cuidado das mulheres. Passa também pela distribuição de mudas, que nos últimos anos chegaram às aldeias do Portal do Encantado para enriquecer roças e quintais.

A Rota fecha o ciclo com a coleta: a produção é recolhida nas comunidades e levada até os pontos de venda e os mercados institucionais, como a alimentação escolar. Na fase atual, a Rota Caminhos da Agroecologia II — Garantindo os direitos de Povos e Comunidades Tradicionais trabalha para que indígenas, quilombolas e outros povos tradicionais vendam para o PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar), com formação, assessoria técnica e estratégias de comercialização. Em Porto Esperidião, o CTA também atua no projeto Terra Nutre, executado pelo ICV com apoio do Fundo Amazônia, que fortalece a produção da agricultura familiar e dos povos indígenas para a alimentação escolar.

Por isso uma banca na Fazendinha pesa mais do que parece. O cacho de banana, o pote de mel e a garrafa de remédio sobre a mesa são o resultado visível de anos de trabalho feito junto com as famílias.

Abertura, feira e noite cultural

A feira reuniu boa parte do Portal do Encantado. Estiveram presentes os caciques Cirlio, da Aldeia Fazendinha, José Suribi, da Aldeia Acorizal, e Vitor, da Aldeia Central, além da NIORSCH, associação da Aldeia Acorizal. A Escola Estadual Indígena Chiquitano, na Aldeia Central, foi representada pelo coordenador José Arruda Mendes, e toda a comunidade do Portal compareceu ao salão.

A APIC recebeu o evento como organizadora local da Rota. Também participaram o CTA e a Coopervales, ao lado das famílias que levaram a produção.

A programação seguiu a ordem combinada pela comunidade. A abertura oficial teve a fala dos caciques. Em seguida, as bancas abriram para a feira. Para fechar, a noite cultural: dança no salão, prova de pular corda para as crianças e campeonato de pênaltis no campo da aldeia.

Crianças da aldeia reunidas no campo, à noite, durante as brincadeiras da noite cultural
Crianças no campo da aldeia durante a noite cultural.
Casal dançando no salão comunitário da APIC durante a noite cultural
Dança no salão da APIC.

A noite terminou com foto de grupo e com a avaliação, compartilhada por organizadores e comunidade, de que o evento tinha valido a pena, com chuva e tudo.

Lideranças chiquitanas, caciques e representantes das organizações reunidos em foto no salão da APIC
Lideranças chiquitanas, caciques e organizações parceiras no encerramento da noite.

A Rota segue

A feira da Aldeia Fazendinha foi a terceira do calendário 2026 da Rota Caminhos da Agroecologia, depois do Assentamento Roseli Nunes, em Mirassol d'Oeste (11 de setembro), e da comunidade Bocaina, em Vila Bela da Santíssima Trindade (18 de setembro). As próximas datas confirmadas são o ENCAES, na Unemat, em Cáceres, nos dias 28, 29 e 30 de outubro, e Silvio Rodrigues, em Mirassol d'Oeste, em 6 de novembro. Araputanga, Baixada Cuiabana, Vila Picada e o PA Sadia 1, em Várzea Grande, ainda estão com datas em aberto.

Galeria de fotos

O dia na Aldeia Fazendinha

Realização
Rota Caminhos da Agroecologia CTA - Centro de Tecnologia Alternativa
APIC - Associação Produtiva Indígena Chiquitano
Apoio
WWF-Brasil GEF, Programa de Pequenos Projetos Ecossociais (SGP), PNUD, ISPN e Fundo Ecos
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