O Centro de Tecnologia Alternativa mantém três colmeias de abelhas Apis mellifera na sede, em Pontes e Lacerda (MT). A atividade cumpre dois objetivos simultâneos: servir de referência técnica para agricultores familiares que querem conhecer a apicultura e gerar renda interna com a produção de mel.
Na manhã desta quinta-feira, 3 de julho de 2026, técnicos do CTA realizaram uma revisão de rotina nas colmeias. O trabalho consistiu em abrir as caixas, verificar as condições das colônias e instalar as melgueiras, que são os componentes responsáveis por armazenar o mel produzido pelas abelhas. O procedimento foi conduzido com equipamento de proteção completo: macacão, luvas e véu.
"A apicultura aqui no CTA tem dois objetivos. Um é ser demonstrativa. O outro é produzir e virar renda internamente", afirmou Ságuio Moreira, presidente da Coopervales e membro da diretoria do CTA, que acompanhou a revisão ao lado de Ermes Marques Pedrosa.
As três colmeias têm produzido em média 20 quilos de mel cada uma por ciclo de produção. O mel é comercializado internamente, e a renda gerada retorna para o custeio das atividades da organização.
A abelha africanizada: por que ela domina o Brasil e o que isso significa para o apicultor
As abelhas das colmeias do CTA são da espécie Apis mellifera, na variedade africanizada — o mesmo perfil que predomina em praticamente todos os apiários brasileiros. Isso não é coincidência: é resultado de um processo que começou em 1956, quando pesquisadores trouxeram abelhas africanas da subespécie Apis mellifera scutellata para um centro de pesquisa em Piracicaba (SP), com o objetivo de cruzá-las com as europeias já existentes no país e desenvolver uma abelha mais produtiva para o clima tropical. Em 1957, 26 enxames escaparam do local antes que os experimentos de seleção fossem concluídos. A partir daí, as abelhas africanizadas se espalharam por todo o Brasil e, ao longo das décadas, foram substituindo naturalmente as colônias europeias na quase totalidade do território nacional.
Na prática, essa substituição foi positiva para a apicultura brasileira. A abelha africanizada é mais adaptada ao clima tropical, trabalha o ano inteiro inclusive em períodos de menor florada, produz mais mel por colmeia e é naturalmente resistente ao ácaro Varroa destructor — uma praga que devasta apiários em boa parte do mundo. A resistência ocorre porque a abelha africanizada tem um ciclo de desenvolvimento mais curto (em torno de 18 a 19 dias, contra 21 dias das europeias), o que dificulta a reprodução do ácaro dentro das células de cria. Por essa razão, enquanto apicultores na Europa e América do Norte gastam recursos significativos com tratamentos antivarroase, os brasileiros raramente precisam se preocupar com esse problema.
O ponto que exige atenção é o comportamento defensivo. A abelha africanizada reage com mais intensidade a perturbações nas colmeias, o que torna o uso de equipamento de proteção adequado — macacão, luvas e véu — indispensável durante qualquer manejo. Com os procedimentos corretos e o uso do fumigador para acalmar as colônias, o trabalho é seguro. O CTA adota esse protocolo em todas as revisões realizadas na sede.
Apicultura como alternativa de diversificação
Para o pequeno agricultor familiar, a apicultura tem uma vantagem que poucas atividades oferecem: ela não compete com o que já está sendo produzido na propriedade. As colmeias ocupam pouco espaço, podem ser instaladas em áreas de mata ou de pastagem e não interferem nas roças, hortas ou criações existentes. Enquanto o agricultor cuida da lavoura, as abelhas trabalham por conta própria.
A renda gerada pelo mel já justifica a atividade por si só. A média nacional de produção gira em torno de 19 quilos de mel por colmeia ao ano. Com manejo adequado e boa florada na região, esse número pode ser muito maior: pesquisa da Embrapa realizada em áreas de soja constatou produção de até 50 quilos por colmeia durante a florada, mais que o dobro da média nacional. Mesmo no patamar médio, um pequeno apiário de dez colmeias produz cerca de 190 quilos de mel por ano — uma renda complementar relevante sem que o agricultor precise deixar de fazer o que já faz.
Mas o impacto mais significativo na maioria das propriedades não vem do mel. Vem da polinização. Pesquisa da Embrapa publicada em 2024 demonstrou que a introdução de colmeias em cafezais elevou a produtividade das lavouras em 16,5%. O mecanismo é direto: as abelhas visitam as flores para coletar néctar e pólen e, ao fazer isso, transportam grãos de pólen de uma flor para outra, fertilizando as plantas com muito mais eficiência do que o vento ou outros insetos. O resultado aparece na quantidade e na qualidade dos frutos colhidos. Frutas, hortaliças, oleaginosas, leguminosas — todas se beneficiam da polinização por abelhas, e o agricultor que mantém colmeias na propriedade recebe esse serviço de graça, como subproduto natural da atividade.
Os números ajudam a entender o impacto. Estima-se que cerca de 70% das culturas alimentares do mundo dependem, em algum grau, da polinização por animais — e as abelhas respondem pela maior parte desse trabalho. No Brasil, o valor econômico da polinização realizada por abelhas nas lavouras é estimado em dezenas de bilhões de reais por ano, muito acima do valor do mel produzido. O agricultor que mantém abelhas na propriedade não só vende mel: ele aumenta o rendimento de tudo que já planta.
A experiência do CTA com apicultura parte exatamente dessa lógica. As três colmeias mantidas na sede servem como ponto de partida para que agricultores que visitam o centro possam ver o manejo na prática, conhecer os equipamentos necessários e calcular a viabilidade para suas próprias realidades. A produção de 20 quilos por colmeia registrada nas revisões está alinhada com a média nacional — um resultado concreto que demonstra que a atividade funciona mesmo em escala pequena, sem estrutura especializada.
Fontes e referências
- Embrapa — Pesquisa insere abelhas em cafezais e produtividade sobe 16,5% (Agência Gov, outubro de 2024)
- Embrapa / BASF — Estudo comprova os ganhos da convivência entre sojicultura, apicultura e meio ambiente, incluindo produção de até 50 kg de mel por colmeia durante a florada da soja (ESG Inside, dezembro de 2025)
- Embrapa — Apicultura Brasileira (publicação técnica): média nacional de produção de mel e características da abelha africanizada
- Wikipedia — Abelha africanizada: histórico da introdução no Brasil, características do ciclo de desenvolvimento e resistência ao ácaro Varroa
- FAO — Pollinators, Pollination and Food Production: estimativa de que aproximadamente 75% das principais culturas alimentares do mundo dependem, em algum grau, de polinizadores animais
